Ética na Casa Espiritualista

 

Autora: Maria Beatriz da Silva Mattos

Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa[1], ÉTICA “é o ramo de conhecimento que estuda a conduta humana, estabelecendo os conceitos do bem e do mal, numa determinada sociedade em determinada época”.

 

O filósofo Mario Sérgio Cortella, em entrevista a Jô Soares[2], coloca que Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são: quero? devo? posso? Para ele, isso é ética, ou seja, os princípios, aquilo que embasa o nosso agir. Ele nos lembra que tem coisas que queremos mas não devemos, coisas que devemos mas não podemos e tem coisas que podemos mas não queremos.

 

Então, quando é que temos paz de espírito? Temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e o que podemos é o que devemos.

 

Mas como isto se dá?! Quem define o que é ética? Quem define quais são os princípios que deverão nortear nossas condutas e ações? Essa definição se dá através do exemplar, através de princípios da sociedade, princípios que podem ser religiosos ou não, e também por meio de normatizações. Por exemplo, há 20 anos, as pessoas fumavam em lugares fechados e outras não. Uns 10 anos depois, surgiram as placas dizendo “é proibido fumar” e hoje, não precisa mais das placas, pois as pessoas introjetaram este comportamento social de não fumar em locais fechados. Ou seja: podemos fumar, mas mesmo que queiramos, não devemos fumar em locais fechados, pois sabemos que faz mal e é proibido, e então não fumamos.

 

Às vezes, os princípios aparecem como norma, é o caso do cinto de segurança. Antes, tentava-se burlar o uso, enganar que se estava usando. Hoje, entramos no carro e colocamos o cinto automaticamente, sem a necessidade de pensar se levaremos multa ou não caso não coloquemos o cinto, o comportamento se tornou automático: usamos porque queremos nos proteger, podemos nos proteger e devemos nos proteger!

 

Segundo Cortella, isso significa que “a ética vai se construindo” com o passar do tempo. Mas, é importante ressaltar que “não existe ninguém sem ética”, mesmo quando observamos comportamentos de fraudes, roubos, mentiras, existe uma ética. Ela pode ser uma ética contrária à nossa, uma antiética, mas é uma ética.

 

Então, qual a diferença entre ética, moral, imoral e amoral? “Moral é a prática de uma ética”. Ética é o princípio e a moral é a sua prática. Portanto, todos nós temos princípios éticos. Exemplo de um princípio ético: não pegamos o que não nos pertence. Nosso comportamento moral é se roubamos ou não. Portanto, “o princípio se traduz numa moral”.

 

Moral relaciona-se aos costumes, significa “conjunto de regras”[3], de princípios e valores de conduta humanos, são os bons costumes, as regras que regem o ser e agir de um determinado grupo; também significa “tratado sobre o bem e o mal”.[4]

 

Imoral é um conceito que depende da moral que praticamos. A moral se baseia na ética, naquilo temos por traz dos nossos atos. Ou seja, o que nos faz agir de um determinado jeito (moral) são os nossos princípios, os fundamentos que usamos para justificar nossas ações (ética). Por exemplo, há pessoas que consideram imoral duas pessoas do mesmo sexo se beijarem na boca, outras não. O conceito de imoral depende da moral de quem pratica e esta moral se baseia na referência ética que existe por traz do comportamento. Mas, a época e a cultura em que se deu o fato devem ser considerados também. Por exemplo, no século 19, era absolutamente aceitável, portanto moral, se ter escravos e castiga-los. Hoje, século 21, sociedade ocidental, isso é imoral e, portanto, antiético.

 

Isso não significa que a ética seja relativa, o que é relativa é a moral. A ética é sempre de uma época, de um grupo, mas ela tenta ser universal. Um exemplo de tentativa de tornar universal determinada ética é a Carta dos Direitos Humanos. Desde a década de 1960, tenta-se universalizar os direitos humanos a partir de uma ética comum (universal). Até hoje estamos tentando…

 

Amoral é alguém que não pode decidir, escolher e julgar, como uma criança até determinada idade, ou alguém com algum comprometimento cognitivo grave, por exemplo Alzheimer, autismo, etc. É o que no Direito se chama de incapaz.

 

Paulo de Tarso, na I Carta aos Coríntios 6:12 (capítulo 6, versículo 12), diz: “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Lícito é o mesmo que permitido, ou seja, “posso fazer qualquer coisa porque eu sou livre, mas eu não devo fazer qualquer coisa”. (Cortella) Segundo São Marcos 8:36, Jesus afirmou que “De nada adianta ao homem ganhar o mundo se ele perder a sua alma”. Perder a alma é o mesmo que perder a integridade, a hombridade, a capacidade de ser honesto, transparente, digno. Portanto, perder a alma significa perder a sua ética e, como consequência, ter um comportamento imoral.

 

A colocação de S. Marcos nos leva a pensar que se “A Ética é o estudo sistemático da argumentação sobre como devemos agir” [5], ou seja, é uma reflexão sobre a ação humana, o comportamento do médium no que se refere ao sigilo dos atendimentos mediúnicos é uma questão de integridade, de comportamento moral. Na relação entre o médium incorporado e o consulente também existem princípios que devem determinar como essa relação deve ocorrer. Portanto, deve ser uma relação permeada por princípios, virtudes, deveres e direitos.

 

Quando o médium se propõe a ser um “atendente”, um “ouvido amigo” ou aquele que emprestará seu corpo para que uma entidade espiritual possa auxiliar uma outra pessoa em sofrimento, em suas dificuldades particulares, do ponto de vista das virtudes, podemos pensar que esta é uma atividade que requer desde a polidez até o Amor. Espera-se que o médium seja cordial, mas ao mesmo tempo corajoso no sentido de fazer o que deve ser feito, de falar o que deve ser dito, porém sempre de maneira tranquila e, acima de tudo, ser compassivo, ou seja, ter compaixão pela dificuldade do outro. Se a compaixão é importantíssima em qualquer relação de ajuda, o amor do tipo ágape então, é condição fundamental! O amor ágape é o amor que se doa, o amor incondicional, que se entrega, é ele que demonstra a disposição genuína do médium em realizar um atendimento de quem quer que seja, com qualquer problema que seja, sem julgamentos morais.

 

Além disso, é dever do médium manter a confidencialidade que é a base do dever de sigilo. A relação médium incorporado e consulente se baseia na confiança e, a confidencialidade, é um aspecto fundamental desse tipo de relação. Preservar, guardar para si as informações do consulente é uma questão de respeito pelo irmão que se coloca confiante diante do médium/entidade.

 

A questão do julgamento nos leva ao conceito de ética novamente, o qual traz em si três aspectos fundamentais: a) os conceitos de bem e mal – o que dará origem à moral[6] do grupo, b) a sociedade ou grupo a que se refere determinada ética e c) uma época específica.

 

Esses três aspectos mostram que ética não é um conceito absoluto, ou seja, terá influência do que um determinado grupo entende por bem e por mal numa determinada época.  Assim, é necessário que se leve em conta o que o grupo da Roda do Saber, do Espaço Caminho de Ascenção entende por bem e mal, neste momento.

 

Na Roda do Saber, os conceitos estudados como base para a prática mediúnica têm sido retirados de tradições espiritualistas em geral, mais frequentemente do Espiritismo e da Umbanda. Assim, o conceito de Bem e Mal neste texto terá por base a interpretação do que foi proposto por Jesus, uma vez que tanto o Espiritismo (Allan Kardec) quanto a Umbanda são religiões cristãs.

 

Segundo Guedes[7], toda pessoa que professa a Umbanda, deve ter uma conduta que revele em todas as circunstâncias de sua vida, o seu grau de espiritualidade, ser merecedor de toda confiança e apoio por parte dos consulentes que “terão em seu exemplo e nas manifestações do seu Mentor Espiritual, a possibilidade de colocar-se de pé ante os atropelos do dia-a-dia”. Portanto, o médium é um modelo de conduta, de força para aqueles que frequentam o Centro.

 

Segundo Kardec, o Espiritismo não criou nenhuma moral nova, apenas facilita como compreender e praticar a moral do Cristo, ou seja, o Espiritismo auxilia a aprendermos como vivenciar o que Jesus propôs como conduta, como comportamento.[8] E este ensinamento de Jesus é: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas”. (Mateus, 7:12)

 

Mais a frente, Kardec coloca: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações[9] Portanto, a proposta que se faz é a de agirmos conforme os princípios (ética) de conduta propostos por Jesus: buscarmos trabalhar o que ainda não temos de amoroso em nós e que acaba por interferir em nossas condutas. O bem para a Doutrina Espírita se resume no amor e na justiça, e o mal, tudo que seja contrário a eles.

 

A moral ou conduta cristã é a concretização dos princípios propostos por Jesus, baseia-se no amor e, consequentemente, na caridade. Ainda segundo Paulo de Tarso em sua I Carta aos Coríntios (8:1 a 7 e 13): “Agora, essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem; mas, entre elas, a mais excelente é a caridade”. A caridade aqui não é apenas a de doar algo a quem precisa. A verdadeira caridade cristã vai além, é “fazer para os outros, o que se deseja para si”.[10]   E isso se traduz nas seguintes ações cotidianas, entre outras: não julgar, não maldizer, não exigir do outro o que eu acredito ser possível, ser benevolente, devotado, paciente, humilde, não invejoso, justo, verdadeiro…, enfim, buscar, tentar com toda sinceridade e vontade vivenciar as virtudes humanas positivas. A expectativa não é de perfeição, mas de busca sincera e disciplinada de colocar em prática a moral e a ética cristãs.

 

E por que a ética e a moral são quesitos tão importantes aos médiuns e desenvolventes?[11] Sabemos que a faculdade mediúnica em si é orgânica e, portanto, ser dotado de mediunidade não depende do desenvolvimento moral do médium, porém, o uso que será feito da mediunidade depende das qualidades do médium. Os médiuns de moral questionável ou não elevada tem, através da mediunidade, a oportunidade de aproveita-la como um meio a mais para se esclarecerem, para evoluírem moralmente. É um meio de redenção que a amorosidade divina coloca nas mãos do próprio médium. Quando usada de maneira inadequada, para fins de interesse próprio ou por vaidade, é uma perda de oportunidade de auto esclarecimento.

 

Muitas mensagens de caráter moral são recebidas por médiuns a fim de também os esclarecer a respeito de determinado assunto. “O mal é que na maioria das vezes ele não a toma para si mesmo”, ou seja, não acha que aquele ensinamento possa ser para ele. “Os Espíritos dão lições quase sempre com reserva, de maneira indireta, para deixarem maior mérito aos que as aproveitam. Mas são tais a cegueira e o orgulho de certas pessoas, que elas não se reconhecem nas lições recebidas. E ainda mais: se o Espírito lhes dá a entender que se referem a elas, zangam-se e chamam o Espírito de mentiroso ou de atrevido. Basta isso para mostrar que o Espírito tem razão”. (LM p. 226, item 4)

 

As mensagens, no geral, são para muitas pessoas, de interesse geral, mas devem ser consideradas também para o próprio médium que tem ali, oportunidade ímpar de aprender e evoluir.

 

Mas, além das mensagens em si, a conduta do médium no seu dia a dia, por uma questão de sintonia energética entre o espírito e o médium, irá atrair ou afastar os bons espíritos. É fundamental compreender que os espíritos desencarnados identificam-se, simpatizam-se ou afinizam-se com os médiuns. Ocorre um mecanismo de atração ou repulsão do médium sobre o espírito comunicante, de acordo com o grau de semelhança entre eles. Assim, “os bons têm afinidade com os bons e os maus com os maus, de onde se segue que as qualidades morais do médium têm influência capital sobre a natureza dos Espíritos que se comunicam por seu intermédio… As qualidades que atraem de preferência os Espíritos bons são: a bondade, a benevolência, a simplicidade de coração, o amor ao próximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, e sensualidade e todas as paixões pelas quais o homem se apega à matéria”. (LM, p. 227)

 

De todas as imperfeições morais, a que mais atrai os maus espíritos, e que é explorada por eles com mais habilidade, é o orgulho, pois é a que mais temos dificuldade em reconhecer em nós mesmos. Daí a importância de não nos deixarmos levar por elogios por nossa mediunidade.

 

Como não existem espíritos encarnados perfeitos, somos todos espíritos em evolução, muitas vezes, mesmo que o médium tenha qualidades morais elevadas, pode transmitir falsas mensagens. Isto se dá pois, segundo os espíritos, o médium pode ter questões em sua alma que favoreçam este tipo de coisa. Ou ainda, mesmo que não seja “vicioso ele pode ser leviano e frívolo. E pode também necessitar de uma lição, para que se mantenha vigilante”. (LM, p. 226, item 6).

 

Assim, conclui-se que princípios éticos equivocados ou questionáveis, que levam a uma moral imperfeita, tornam os médiuns alvo mais fácil dos espíritos enganadores. Tais espíritos podem levar os médiuns a situações em que as suas imperfeições se revelem, ou os afastam de pessoas sérias, bem-intencionadas, de quem a boa-fé poderia ser abusada por tais espíritos.

 

Portanto, o bom médium – e não o médium perfeito, pois neste plano não há perfeição – “seria aquele que os maus Espíritos jamais ousassem fazer uma tentativa de enganar. O melhor é o que, simpatizando com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes”. (idem, item 9) O que garantirá a presença mais constante de bons espíritos é “desejar o bem e repelir o egoísmo e o orgulho; as duas coisas são necessárias”.  (idem, item 11). Em resumo, o bom médium baseia suas condutas na ética e na moral cristãs, desafio a todos nós, desenvolventes e médiuns.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa: Antônio Geraldo da Cunha, 3a ed., Lexikon Editora Digital, Rio de Janeiro-RJ, 2007.

 

Dicionário on line Priberam, consultado em 11/03/2017 às 10:10h.

 

Entrevista de Mario Sérgio Cortella a Jô Soares

 

GUEDES, Pedro Henrique Pereira. Código de Ética do Umbandista. Consultado em 25/03/2017 às 09:07h.

 

SINGER, P. Ethics. Oxford UP, 1994 in Aspectos Éticos da Publicação de Relatos de Casos em Psicoterapia, Julia Schneider Pratos. Consultado em 25/03/2017 às 9h.

 

O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE): capítulos XVII, item 4 e XI item 4.

 

O Livro dos Médiuns (LM), capítulo XX, perguntas 226 a230.

 

[1] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa: Antônio Geraldo da Cunha, 3a ed., Lexikon Editora Digital, Rio de Janeiro-RJ, 2007.

[2] Entrevista de Mario Sérgio Cortella a Jô Soares

[3] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa: Antônio Geraldo da Cunha, 3a ed., Lexikon Editora Digital, Rio de Janeiro-RJ, 2007

[4] Dicionário on line Priberam: www.priberan.pt , consultado em 11/03/2017 às 10:10h.

[5] (Peter Singer, Ethics. Oxford UP, 1994 in Julia Schneider Pratos – Aspectos Éticos da Publicação de Relatos de Casos em Psicoterapia),

[6] Dicionário online Priberam. Consultado em 11/03/2017 às 10:10h.

[7] Código de Ética do Umbandista. Pedro Henrique Pereira Guedes in. Consultado em25/03/2017 às 09:07h.

[8] e 9 O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE): capítulo XVII, item 4

[10] O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), cap. XI, item 4.

[11] O Livro dos Médiuns (LM), capítulo XX, perguntas 226 a230.